Uma família

marcada pela fome

Percorrendo um caminho de terra batida em um dia chuvoso, a equipe da Aldeias Infantis SOS chega à casa de Jaqueline Ferreira de França em Araçoiaba (PE). A casa, feita com lona, madeira e plástico, pouco abriga a mãe e as duas filhas: Jamile de 8 anos e Elisa, de apenas 2. 


Do lado de fora, nota-se como a estrutura é frágil: tapumes de madeira, lonas pretas e pvc se encaixam para formar a casa de poucos metros quadrados. Entulhos, móveis e uma velha caixa d’água se deterioram com o sol e a chuva. No ar, um cheiro forte de fumaça domina o ambiente. 


Conhecida como Ouro, Jaqueline aparece na porta após ouvir seu nome. O rosto abatido demonstra cansaço e a saúde debilitada por consequências da asma e da tuberculose.  


Josinete Inácio, assistente de desenvolvimento familiar e comunitário da Organização, acompanha a família há dois anos. Ao ver Jaqueline, identifica que as chances de ela não estar tomando os medicamentos é grande. Quando questionada, Ouro confirma com tristeza. No município, um dos mais vulneráveis de Pernambuco, o acesso ao mais básico não é para todos. 


A próxima pergunta é sobre Jamile, a filha mais velha. A mãe explica que a criança está na casa da avó paterna, passou a semana toda lá. A ausência da filha não é novidade para Jaqueline. Ela vai para casa da avó com frequência, pois é lá que consegue se alimentar com mais constância. Ouro não tem condições de trabalhar e depende de doações para comer.  


O cheiro da fumaça tóxica retoma a atenção da equipe para o interior da casa. Jaqueline usa dois tijolos, lenha e uma grelha para improvisar um fogão. Naquele dia, o almoço será só arroz.  


Ao entrar na casa, as dificuldades enfrentadas pela família ficam ainda mais evidentes. Ali não existe energia elétrica, água encanada ou banheiro. Elas só têm água quando chega o caminhão pipa na comunidade, muitas vezes, demora duas semanas para passar. 


O choro de Elisa de repente interrompe a conversa. A criança dormia em um berço rosa ao lado da cama da mãe e de um pequeno armário sem portas. Os objetos, marcados pelo tempo, demonstram o abandono e a pobreza extrema da família. Na cozinha, a fuligem da lenha empretece os armários e algumas panelas vazias que estavam ali. De alimentos, somente arroz, um pouco de leite em pó e sal. 


Um quadro com a foto de Jamile simboliza a presença e o afeto da mãe pela filha. Jaqueline, uma mulher tímida e solitária, que tenta sobreviver dia após dia, lutando contra a fome, o abandono do Estado e da família e suas tristezas. Mesmo diante de tanto, ela mantém seu sonho com esperança: construir uma casa melhor para suas filhas. 


Uma vez por mês, ela participa de uma roda de conversa com outras mulheres da comunidade em nosso centro de atividades. Neste espaço seguro, elas podem compartilhar sentimentos, experiências e dúvidas umas com as outras. Pouco a pouco, Jaqueline começa a se abrir e encontrar companhia em seu universo solitário. 


“Quando eu volto das rodas, fico em casa sorrindo”, conta ela. 


Essa é a realidade da Jaqueline e suas filhas. E se fosse você? E se fosse alguém que você ama?




A Aldeias Infantis SOS Brasil lidera o maior movimento de cuidado infantil no mundo para que nenhuma criança cresça sozinha. Como organização global, cuidamos de crianças, fortalecemos famílias vulneráveis, apoiamos situações de emergência e advogamos pelo direito de viver em família em 137 países